Há 30 anos, maior tremor do NE acontecia no CE
A conversa que se espalhou pelo distrito de
Brito, a 32 quilômetros da sede, Cascavel, era a de que o mundo estava
para se acabar. O dia 20 de novembro de 1980 começava
agoniado.
“’Valei-me minha Nossa Senhora!’, foi só o que eu pensei. Ajuntei os
meninos e a gente ficou tudo junto, debaixo daquele pé de caju”, narra a
dona de casa Zuila dos Santos, 58, enquanto passa um pente vermelho no
cabelo. Na época, os filhos eram crianças, “uma de mês e o outro, dois
anos” e não paravam de chorar. Enquanto isso, as plantas, casas e tudo
mais nesse mundo onde a vista alcançasse não parava de se rebulir. Era o
maior tremor de terra do Nordeste.Na hora do relógio, passava pouco de 00h30min, mas a memória da senhora registra que “tava para amanhecer o dia”. “Durou bem duas horas”, faz as contas, do tempo de sensação. Mas o terremoto alcançou 5,2 graus na Escala Richter, maior registrado no Nordeste e teve a duração de longos 5 a 10 segundos. Tempo suficiente para rachar boa parte das paredes e derrubar várias telhas da casa em que vivia a família. E assim foi com mais de 400 famílias de Brito e localidades vizinhas. “Pelo menos não era um vulcão saindo do chão, como tavam dizendo. Tivemos que reformar a casa”, resume.
O terremoto foi batizado de Pacajus, região onde um maior número de pessoas foram prejudicadas. Nenhuma pessoa morreu ou se feriu gravemente com o abalo sísmico, “graças a Deus”, felicita-se o comerciante aposentado Dionísio Pereira de Aquino, 84. Na época, com pouco mais de 60 anos, ele passou por grande aflição. Várias de suas prateleiras cederam e garrafas de bebida quebraram. O prejuízo foi grande, recorda. Encheu carros de mão de garrafa quebrada. “Pelo menos, lavou o chão da bodega com álcool”, diz, sem perder o bom humor. “Fiquei com medo do chão afundar”.
Na época, ninguém queria mais dormir dentro de casa. As rachaduras teimavam em abrir as paredes. E qualquer outro mexido podia fazer tudo vir ao chão. Mesas, fogão, geladeira, armários, sofás. A solução, então, foi a de se encostar debaixo dos cajueiros ou de alguma mesa tirada das casas. Eram dezenas de famílias dormindo e acordando sob as árvores.
“Até hoje, de vez em quando, o chão balança”. Quem garante é Antônio Pereira, 41, filho de Dionísio. Claro que não com a mesma intensidade de três décadas atrás, mas ainda tira o sono de muita gente na região. Com 11 anos na época do tremor, o homem lembra de tudo, e conta com os olhos de menino. “Não tem aviso, não. Chega duma vez. É um negócio! Esquisito. (pausa) Invisível. Temeroso”.
Agora, tirando o medo e a aflição, bonito mesmo ficou a paisagem, garante seu Dionísio. O chão de todo o distrito ficou fino e dividido por igual, como se alguém tivesse acabado de passar a peneira. Uma previsão teria sido feita, garante o seu Dionísio, pelo Frei Vidal de Penha. “Ele fez uma previsão de que essa terra num tinha paradeiro. Que ia virar mar, de Timbaúba dos Marinheiros (distrito de Chorozinho) até aqui. Que ia virar posto de embarcação. A terra já está negando o pão. Acabou-se carnaúba. Tá pelo fim das épocas. Não duvido nada que se acabe mesmo”.
O que
ENTENDA A NOTÍCIA
Ainda não existem equipamentos capazes de realizar uma precisão com segurança de um terremoto. No Ceará, as áreas mais atingias pelos abalos são a Leste, onde ficam Cascavel e Pacajus e a Norte, onde se localiza Sobral.
SOBRE O TREMOR
De acordo com Brandão Melo, gerente do Laboratório. Sismologia da Defesa Civil, as causas desse terremoto são tectônicas. Apesar de o Brasil se encontrar no meio da placa tectônica, quando elas se chocam, ocorre um reflexo no interior das placas.
Segundo dados do Governo do Estado, foram recuperadas 488 casas em conseqüência do terremoto.
O abalo sísmico pode ter atingido, na época, até 600 km. Os tremores chegaram a ser sentido em São Luiz (MA) e Teresina (PI).
O epicentro do terremoto de Pacajus foi localizado de Brito até Timbaúba dos Marinheiros. A intensidade (grau de destruição) em Timbaúba chegou a 7 – a escala vai até 12.
Segundo Brandão Melo, a Escala de Magnitude é o cálculo da energia liberada no interior da Terra. No terremoto de Pacajus, a escala chegou a 5,2..
No Ceará, são 40 cidades com evidências sísmicas.
Terremoto é um movimento brusco e repentino do terreno como resultado do movimento e choque entre placas tectônicas. Portanto, a ruptura de uma rocha é o mecanismo pelo qual o tremor é produzido. Essa ruptura causa a liberação de energia.
Angélica Feitosa
"Há 30 anos, maior tremor do NE acontecia no CE"
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