O maior parodista de Sobral
Duvida? Ora, um dia, sem ligeireza, se apeie do carro ou da bicicleta e pare para conversar com Raimundo Arruda de Sousa, 75. Raimundo, que também se chama Darlei (“modestamente, é meu nome artístico”), é talvez o maior parodista vivo do Ceará. Há 40 anos, Darlei bate o ponto no Becco. Despacha em banca o jogo que se proibiu e espera sereno o dia em que se tornará o homem mais antigo do Becco: à frente dele, há apenas Eli, o relojoeiro. “Tinha o barbeiro Chiquinho Bento, mas morreu. O cambista João Pedro também morreu. De repente, virei o segundo mais velho daqui”. Quando chegará o dia em que os últimos serão os primeiros? “Quem sabe lá é o Homem de cima.”
Raimundo / Darlei é discreto, miúdo, alinhado, sorridente, piadista, garboso e famoso. “Desculpa a modéstia, mas sou conhecido na região Norte toda”, informou ao O POVO. Também é afamado por se desculpar sempre que arrola um predicado novo a si mesmo. A cada qualificativo, sai-se com um “desculpe a modéstia”. É um cacoete de fala. Quando relatou: “Na época (1970), podia trazer o Roberto Carlos que não fazia tanto sucesso aqui em Sobral”, referindo-se às paródias políticas que criava durante as campanhas à Prefeitura da Princesa do Norte, logo emendou um “modestamente falando, claro”.
Se ainda não ficou claro de que se ocupava Darlei até bem pouco tempo atrás, o ofício do homem foi, por quase 30 anos, vender um produto de difícil aceitação: candidatos políticos. Para tanto, transfigurava sucessos musicais da época. Fazia exatamente o que se faz hoje com canções de Ivete Sangalo e do grupo Parangolé. Em Sobral, só havia dois nomes capazes de, armados apenas de verbo e microfone, arrebatar os corações das pessoas numa campanha política: o finado Pedro Lavandeira era um. Darlei, arquirrival, era outro. Como duas famílias (os Prado e os Barreto) se digladiassem pelo comando da terra de Cid Gomes, estavam inevitavelmente em lados opostos. Darlei com os Barreto e Lavandeira com os Prado.
O que não implicava em inimizade. “Éramos amicíssimos. Eu chorei quando ele morreu”, disse o senhorzinho, nada choroso. De acordo com Darlei, de 1960 para cá, apenas três paródias políticas estouraram na sua Sobral: uma de sua autoria; outra de Pedro Lavandeira, obviamente. A terceira, de Chico Pessoa, não é puramente uma concessão à modernidade. Darlei explica que Pessoa fez o sobralense berrar muito durante a campanha a deputado federal de Oman Carneiro no último pleito. Segundo o mago da paródia, a chave do sucesso do autor foi o berro. “Ele fez Sobral inteira berrar que nem carneiro.”
Cavoucando vagaroso o passado, que é repleto de historietas, Darlei, bem casado e pai de três filhos, recorda o maior desafio de sua vida. Detrás da banca do jogo, resume o nó górdio daquela campanha malfadada já perdida nos idos dos 1980: “Trabalhei para um candidato que era casado, mas vivia com uma dita cuja”. O cantador esclarece que, mesmo composta com rigor e resultando um primor de paródia, o sobralense fechara a cara para o entrevero familiar do candidato. Era definitivo: não daria o voto para um adúltero. Assim, “a música não pegou. Dado o candidato, foi a eleição mais difícil”.
Num Becco já prenhe de personagens, Raimundo Arruda é o segundo homem mais antigo a trabalhar ali. Tem uma infinidade de histórias para contar. Em permanência no Becco, perde apenas para Eli, o relojoeiro.
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